Você acordou hoje, tomou café, foi trabalhar, pagou suas contas e voltou pra casa. Talvez tenha parado pra tomar uma cerveja no caminho, assistiu o jogo, conversou com os amigos. Uma quarta-feira normal, nada demais.
Agora me responde: quantas vezes a política apareceu na sua vida hoje?
Se você respondeu “nenhuma” ou “não me meto com política”, eu tenho uma notícia: você está completamente enganado. E não é culpa sua — é exatamente isso que querem que você acredite.
Política não é o que acontece em Brasília. Política é o preço do pão que você comprou hoje de manhã. É o imposto que saiu do seu salário antes de você ver a cor do dinheiro. É a qualidade da rua que você pegou pra ir pro trabalho. É o tempo que você perdeu no trânsito. É o valor da cerveja que você pagou no bar.
Política é tudo. Sempre foi. E quanto mais você finge que ela não existe, mais ela te afeta sem que você perceba.
Eu não vou tentar te convencer a ser de direita ou de esquerda. Não vou te pedir pra votar em A ou B. O que eu vou fazer é bem mais simples e, ao mesmo tempo, bem mais importante: vou te mostrar como a política está infiltrada em cada canto da sua vida, querendo você ou não.
E no final deste texto, você vai entender por que ignorar política é a pior decisão que você pode tomar.
Política é poder — e poder sempre afeta você
Vamos começar pelo básico: o que é política?
A definição clássica, que você provavelmente ouviu na escola e esqueceu cinco minutos depois, é que política é a arte de governar, de organizar a sociedade, de definir regras coletivas. Aristóteles, lá na Grécia Antiga, dizia que o homem é um animal político por natureza, ou seja, viver em sociedade é viver politicamente.
Mas vamos traduzir isso pro mundo real: política é quem decide o que você pode ou não pode fazer, quanto você vai pagar por isso e quais são as consequências se você não obedecer.
Simples assim.
Toda vez que alguém tem poder de decisão sobre a sua vida — seja o presidente, o prefeito, o vereador, o juiz, o servidor público —, isso é política em ação.
E aqui está o ponto que muita gente não entende: você não precisa gostar de política pra ser afetado por ela. É como gravidade. Você pode achar que gravidade é chata, irrelevante, desinteressante. Mas se você pular da janela, ela vai te puxar pra baixo do mesmo jeito.
O imposto invisível: você trabalha 5 meses por ano só pra pagar o governo
Sabe quanto do seu salário vai embora antes de você receber? Sabe quanto você paga de imposto todo mês sem nem perceber?
Eu vou te dar um número que vai te irritar: o brasileiro médio trabalha cerca de 157 dias por ano só pra pagar impostos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). Isso é quase 5 meses do ano. De janeiro até meados de junho, você não trabalha pra você — você trabalha pro Estado.
E eu não estou falando só do imposto de renda que você vê descontado no contracheque. Estou falando de tudo:
- ICMS na conta de luz
- ICMS na conta de água
- ICMS na gasolina
- IPI no carro
- ISS no serviço que você contrata
- PIS/COFINS em praticamente tudo que você compra
- IPTU na sua casa
- IPVA no seu carro
- Imposto sobre o cigarro, sobre a cerveja, sobre o alimento
Quando você compra uma cerveja no supermercado, até 56% do preço final pode ser imposto, dependendo do estado. Ou seja: você paga mais pro governo do que pra cervejaria que produziu a cerveja.
Isso é política.
E olha que interessante: você não votou pra pagar mais imposto. Mas alguém decidiu que você ia pagar. Alguém aprovou essa lei. Alguém botou isso em prática. E você, querendo ou não, está pagando.
Por que sua rua tem buraco? Política. Por que o transporte é ruim? Política.
Agora pensa comigo: quantas vezes você já reclamou do buraco na rua? Do ônibus lotado? Do metrô quebrado? Do posto de saúde sem médico? Da escola pública sucateada?
Aposto que muitas.
E aposto também que você provavelmente pensou: “Ah, é Brasil, né. Nada funciona mesmo.”
Errado. Não é Brasil. É decisão política.
Cada buraco na rua que você desvia é uma escolha orçamentária. Cada obra superfaturada, cada verba desviada, cada investimento que não foi feito — tudo isso é resultado direto de decisões políticas.
O Brasil gasta cerca de R$ 1,5 trilhão por ano em orçamento público, segundo dados do Tesouro Nacional. É muito dinheiro. Dinheiro que, teoricamente, deveria ser usado pra melhorar a sua vida.
Mas aí vem a pergunta que ninguém quer responder: por que, então, tanta coisa continua funcionando mal?
Porque política não é só quem faz. É como faz. É quanto gasta. É pra quem destina. É qual prioridade escolhe.
Quando um prefeito decide gastar milhões em estátua e deixa o asfalto rachado, isso é política. Quando um governador prefere obra de visibilidade a investir em saneamento básico, isso é política. Quando um presidente faz política econômica que gera inflação e seu almoço fica 30% mais caro, isso é política.
E você, que “não se mete em política”, está lá pagando a conta.
A ilusão de que política não te afeta
Eu vejo muito cara falando: “Eu não gosto de política, então eu não me envolvo.”
Cara, isso não existe.
Você pode até não se envolver com política. Mas política se envolve com você. Todos os dias. O tempo todo.
Você sabe por que tanta gente repete que “não gosta de política”? Porque política virou sinônimo de briga, corrupção, escândalo, mentira. E ninguém quer se associar a isso. Faz todo o sentido.
O problema é que, ao fazer isso, você entrega o volante da sua vida pra quem quiser pegar. E adivinha quem pega? Exatamente quem tem interesse em que você continue desinteressado.
Estudos de ciência política mostram que abstenção eleitoral e desinteresse político favorecem grupos organizados e bem articulados, que conseguem fazer valer seus interesses enquanto o cidadão comum fica de fora.
Quando você não se importa com política, alguém decide por você. E geralmente não é alguém que está pensando no seu bem.
Política não é futebol — mas tem torcida organizada
Aqui é onde a coisa fica perigosa.
Política virou time de futebol. Tem gente que defende político como se fosse atacante do seu clube do coração. Tem gente que odeia político adversário como se fosse rival de clássico.
E olha, eu entendo. Futebol desperta paixão. Faz parte. É emocional, é tribal, é visceral. Mas futebol não decide quanto você paga de imposto. Futebol não define se a economia vai crescer ou quebrar. Futebol não coloca ou tira comida da sua mesa.
Política, sim.
E quando você trata política como torcida — defendendo seu lado certo ou errado, atacando o outro lado só porque é o outro lado —, você deixa de cobrar, de questionar, de pensar criticamente.
Você deixa de ser cidadão e vira torcedor. E torcedor não cobra desempenho. Torcedor torce independentemente do resultado.
Político adora torcedor.
Liberdade, responsabilidade e o papel do Estado
Agora vou falar de algo que, pra mim, é essencial: o tamanho e o papel do Estado na sua vida.
Eu acredito em liberdade individual. Acredito que você é responsável pelas suas escolhas, pelas suas conquistas e, sim, pelos seus erros também. Acredito que o mérito importa, que esforço gera resultado, que você não deve nada a ninguém além de respeito e honestidade.
E acredito que quanto maior o Estado, menor a sua liberdade.
Não é teoria. É prática.
Cada nova lei, cada nova regulação, cada novo imposto, cada nova exigência burocrática é uma pequena mordida na sua autonomia. Você passa a precisar de permissão pra fazer coisas que antes eram naturais. Você passa a depender de autorização, de carimbo, de aprovação.
O Brasil ocupa a 124ª posição no ranking de liberdade econômica da Heritage Foundation, atrás de países como Ruanda e Geórgia. Por quê? Porque o Estado brasileiro interfere demais, regula demais, tributa demais, engessa demais.
E olha o resultado: empreender no Brasil é um inferno. Abrir uma empresa demora meses. Fechar uma empresa, pior ainda. A burocracia é tão grande que pequenos negócios gastam mais tempo lidando com papelada do que produzindo.
Isso é política em ação.
E o pior: quando o Estado cresce demais, ele se torna ineficiente. Porque não é dinheiro de ninguém. Quando o dinheiro é de todo mundo, vira de ninguém. E aí o desperdício vira regra.
O dinheiro público e a conta que você paga sem saber
Vamos falar claro: dinheiro público não existe. Existe dinheiro do contribuinte. Existe o dinheiro que saiu do seu bolso, do meu bolso, do bolso de todo mundo que paga imposto.
Quando um governante fala em “investimento público”, ele está falando do seu dinheiro. Quando fala em “obra pública”, é o seu dinheiro. Quando fala em “programa social”, é o seu dinheiro.
E aí vem a pergunta que incomoda: você sabe onde esse dinheiro está indo?
Você sabe quanto custa manter a máquina pública? Quanto o Brasil gasta com salários de servidores, com benefícios, com mordomias, com viagens, com gabinetes, com assessores, com estrutura?
O Brasil gasta cerca de 13,6% do PIB com funcionalismo público, segundo dados do Tesouro Nacional. É um dos maiores gastos do orçamento. Mais que saúde. Mais que educação. Mais que segurança.
Isso é política.
E quando o dinheiro acaba — porque gastaram demais, porque desviaram, porque priorizaram errado —, quem paga a conta? Você. Com mais imposto. Com mais inflação. Com menos serviço.
Você vota uma vez a cada dois anos. Política acontece todos os dias.
Aqui está um dos maiores erros que a gente comete: achar que política é só dia de eleição.
Você vota, escolhe seu candidato, vai embora e esquece. Aí dois, quatro anos depois, volta lá e vota de novo. E no meio tempo? Nada. Zero envolvimento.
Mas política não para. Ela continua. Todos os dias. Cada lei aprovada, cada decreto assinado, cada verba liberada, cada nomeação feita — tudo isso está acontecendo enquanto você vive sua vida.
E se você não acompanha, não cobra, não questiona, você está entregando cheque em branco.
Olha, eu sei que é chato. Eu sei que é cansativo. Eu sei que você tem uma vida, tem trabalho, tem família, tem churrasco no fim de semana. Ninguém quer passar o tempo livre lendo projeto de lei ou vendo sessão do Congresso.
Mas a questão é: ou você acompanha ou você aceita o que vier. E o que vier, geralmente, não é bom.
O que você pode fazer? Mais do que imagina.
Agora vou te dar o caminho prático. Porque não adianta só reclamar — tem que agir.
Você pode:
- Se informar. Ler notícias de fontes diferentes. Entender como funciona o sistema político. Saber quem são seus representantes. O que eles votaram. Como eles gastaram o dinheiro público.
- Cobrar. Mandar e-mail pra vereador, pra deputado, pra senador. Comentar nas redes sociais (de forma inteligente, não xingando). Participar de audiências públicas. Usar as ferramentas democráticas que existem.
- Votar com responsabilidade. Não votar em quem promete milagre. Não votar em quem já roubou antes. Não votar em quem não presta contas. Votar em quem tem proposta, histórico, coerência.
- Defender seus valores. Se você acredita em liberdade, defenda. Se acredita em responsabilidade individual, pratique. Se acredita em mérito, cobre. Não seja só teoria. Seja exemplo.
- Entender que tudo tem consequência. Toda escolha política tem impacto na economia, na sua vida, no seu bolso. Não existe almoço grátis. Alguém sempre paga.
Política e futebol: quando a gestão importa mais que o talento
Já que estamos aqui, vou fazer um paralelo que faz todo sentido.
Futebol brasileiro está quebrado. Times enormes, tradicionais, gigantes, estão endividados, mal administrados, dependendo de empresário pra sobreviver.
Por quê? Gestão.
Time de futebol é como país. Você pode ter o melhor elenco do mundo, mas se a gestão for ruim, se o dinheiro for mal aplicado, se a prioridade for errada, você quebra.
E aí entra política: clubes brasileiros, por décadas, foram geridos de forma amadora, irresponsável, populista. Presidentes prometiam contratação, gastavam o que não tinham, faziam dívida em cima de dívida. E o torcedor aplaudia. Até quebrar.
Hoje, os clubes que estão bem são os que profissionalizaram a gestão. Os que cortaram o populismo. Os que fizeram conta. Os que priorizaram estrutura, processo, planejamento.
País é a mesma coisa.
Quando o dinheiro não é de ninguém, o desperdício vira regra. O futebol brasileiro já aprendeu isso do jeito mais caro possível. A gente, como país, ainda está aprendendo.
Conclusão: você não precisa virar militante — mas precisa aprender o que é política.
Olha, eu não estou pedindo pra você largar tudo e virar ativista político. Não estou pedindo pra você sair de casa com bandeira e cartaz. Não estou pedindo pra você brigar com ninguém.
Estou pedindo algo muito mais simples: acorde.
Política não é chata. Política não é distante. Política não é “coisa de Brasília”. Política é sua vida.
É o pão que você compra. É a rua que você anda. É o salário que você recebe. É a liberdade que você tem. É o futuro que você vai deixar pros seus filhos.
E se você continuar fingindo que ela não existe, se você continuar achando que “não se meter” é uma opção, você vai continuar pagando a conta sem nem saber por quê.
Da próxima vez que você reclamar do preço da gasolina, do imposto alto, do serviço público ruim, do político corrupto, lembra: tudo isso é consequência de decisões políticas. E você, querendo ou não, faz parte disso.
Então escolhe: ou você entende o jogo, ou você continua sendo peça dele.
Eu prefiro entender.



